Antes das Contas Anais, Havia uma Peruca. Conheça o Trapaceiro Original do Xadrez com Computador.

Se você assistiuUntold: Chess Mates na Netflix este mês — o documentário sobre Magnus Carlsen, Hans Niemann e o escândalo de trapaça que quase quebrou o xadrez profissional — provavelmente saiu pensando que este era um novo tipo de problema. Jogadores de elite, quantias insanas de dinheiro e a suspeita paranoica de que alguém, em algum lugar, descobriu como alimentar um grande mestre com lances através de um dispositivo oculto. Uma bagunça muito moderna.
Não é. O modelo foi escrito no verão de 1993 por um par de apostadores de Las Vegas, um dos quais usava uma peruca falsa em um torneio de xadrez na Filadélfia. O outro sentou-se em um quarto de hotel.
O homem da peruca se chamava John Wayne. Não o ator — um ex-soldado negro de Los Angeles que atendia por "o Duque", em homenagem ao seu homônimo de Hollywood, e cujos talentos reais eram voltados para blackjack, pôquer e pegadinhas competitivas. Seu melhor amigo era Rob Reitzen, um sábio disléxico que ganhava a vida construindo dispositivos ilegais para trapacear em cassinos: computadores vestíveis, câmeras escondidas em fivelas de cinto, transmissores de rádio enfiados em sapatos. Os dois se conheceram quando Wayne postou um folheto desafiando estranhos a vencê-lo no xadrez e na luta de braço. Reitzen apareceu. Uma amizade nasceu.
No final de junho de 1993, eles voaram para a Filadélfia para oWorld Open de xadrez com uma mala cheia de equipamentos de computador, interruptores, fios e campainhas. O plano era direto, se não exatamente legal: Wayne sentaria no tabuleiro e transmitiria os lances do oponente para Reitzen através de interruptores de dedo do pé embutidos em seus sapatos. Reitzen, executando um software de xadrez caseiro no quarto do hotel, calcularia a melhor resposta e vibraria a resposta de volta para Wayne através de uma campainha escondida. Wayne só precisava mover a peça que lhe mandassem e tentar parecer que estava pensando.
Para disfarce, eles optaram por dreadlocks e um nome falso. O nome que Wayne escolheu, no formulário de inscrição, foi John von Neumann — o nome real de um proeminentematemático e cientista da computação do século XX, falecido desde 1957. "Como em … o pai da teoria dos jogos?" perguntou o oficial do torneio, aparentemente não descartando nada. Wayne acenou com a cabeça. Ele foi colocado no sorteio.
Na segunda rodada, Wayne — de peruca, no personagem, campainha ativada — sentou-se em frente aHelgi Ólafsson, um grande mestre da Islândia. O que se seguiu foi, segundo todos os relatos, um dos jogos de xadrez mais estranhos já disputados. Wayne mal se mexia. Ele olhava para o teto. Ele levantava e abaixava os dedos dos pés, enviando sinais para um homem em um quarto de hotel, esperando por vibrações que levavam minutos para chegar. Em um ponto, o sinal de rádio caiu completamente e Wayne teve que improvisar.
Ólafsson ofereceu um empate. "Von Neumann" aceitou. O grande mestre disse aos jornalistas depois que estava certo de que havia jogado contra "um completo patzer" que "não fazia ideia do jogo" e parecia possivelmente estar drogado.
O esquema funcionou — até que não funcionou mais. Nas rodadas seguintes, o link de comunicação continuava falhando. Wayne foi desclassificado por estourar o tempo. Ele vagou para uma área de xadrez rápido durante os intervalos e colocou $500 na mesa, oferecendo-se para jogar contra qualquer um com um limite de três minutos por lance. Não houve interessados.
No final da semana, os oficiais do torneio ficaram desconfiados. Pediram a Wayne que mostrasse identificação, depois que provasse que não estava recebendo ajuda externa jogando uma partida na hora. Wayne os acusou de racismo e saiu furioso. A breve e gloriosa carreira de xadrez de John von Neumann, o Segundo, acabou.
A manchete da revistaInside Chess depois foi: "O Caso Von Neumann Abala o World Open." O artigo adivinhou corretamente que alguém estava alimentando o jogador com lances através de um computador. Assumiu, erroneamente, que as instruções vieram através de seus fones de ouvido. Quem exatamente fez isso — nunca foi estabelecido. Tornou-se um dos mistérios não resolvidos mais duradouros do xadrez. Uma grande plataforma de xadrez mais tarde listou como "o caso mais antigo conhecido de um potencial trapaceiro de computador."
Este mês, um livro chamadoLucky Devils — do premiado jornalista da Bloomberg Kit Chellel, publicado em 14 de abril — resolveu isso. Chellel encontrou Reitzen, que lhe contou tudo. Wayne, o homem da peruca, morreu de câncer em 2018, com seu melhor amigo ao lado, seu nome ainda desconhecido na história do xadrez. Reitzen, por sua vez, ganhou um lugar no Hall da Fama do Blackjack, uma espécie de Oscar secreto para apostadores profissionais que vencem a casa.
O detalhe que merece um momento é a campainha. Em 1993, John Wayne recebia lances de xadrez através de um dispositivo vibratório escondido em seu corpo — sinais de um computador, transmitidos remotamente, indetectáveis a olho nu. Quando Hans Niemann foimeio que acusado de trapacear na Sinquefield Cup de 2022, a teoria que mais viralizou — amplificada porElon Musk, ridicularizada por milhões — foi que ele recebia lances através de um dispositivo anal vibratório. O mundo do xadrez tratou isso como um horror unicamente moderno. O documentário de Niemann trata como o começo de algo.
Não foi o começo. Rob Reitzen descobriu o dispositivo vibratório em 1993, escondeu-o na roupa de seu amigo, apontou-o para um grande mestre e quase conseguiu. O grande mestre ofereceu um empate. Wayne aceitou. Então Wayne vestiu suas roupas normais, saiu da Filadélfia e não contou a ninguém por trinta anos.
A peruca, segundo todos os relatos, não era muito convincente.