Por mais de três décadas, a lenda do xadrez GM Judit Polgar tem sido uma das maiores representantes que o jogo já conheceu.
Ela quebrou barreiras que muitos acreditavam ser intransponíveis, tornou-se a jogadora mais forte da história e inspirou gerações ao provar que a excelência no tabuleiro não conhece gênero.
Na Olimpíada de Xadrez de 2024 em Budapeste, realizada em sua terra natal, Polgar literalmente carregou a chama—entrando na cerimônia de abertura com a tocha da Olimpíada em uma das imagens marcantes do evento.
Agora, a mulher que há muito é uma das maiores embaixadoras esportivas da Hungria, e cuja história de vida foi imortalizada em um documentário da Netflix lançado este ano, pode estar se preparando para um palco ainda maior, após ser indicada para servir como a próxima presidente do país.
Isso acontece depois que o novo primeiro-ministro da Hungria, Peter Magyar—que foi fotografado jogando contra Polgar no mês passado—anunciou que pedirá a ela que assuma o cargo de chefe de estado em caráter interino na segunda-feira.
Se aceito e aprovado pelo parlamento, Polgar se tornaria a presidente cerimonial da Hungria, um cargo destinado a representar a unidade nacional. Isso também marcaria uma transição extraordinária de ícone esportivo para chefe de estado.
Polgar passou décadas quebrando barreiras. Ela continua sendo a única mulher a ultrapassar a marca de 2700 de rating Elo e a única mulher a alcançar o top 10 mundial no ranking aberto.
Durante sua carreira, ela derrotou 11 campeões mundiais atuais ou anteriores, incluindo os GMs Garry Kasparov, Magnus Carlsen, Viswanathan Anand e Vladimir Kramnik.
Embora tenha se aposentado do xadrez competitivo em 2014, Polgar permaneceu uma das embaixadoras mais influentes do jogo.
Em 2024, ela serviu como rosto público da 45ª Olimpíada de Xadrez da FIDE em Budapeste, desempenhando um papel central na promoção do evento. A Olimpíada foi uma produção de €16,6 milhões financiada em grande parte pelo governo húngaro, então liderado por Viktor Orban.
Política do Xadrez e Hungria
A Hungria assumiu um papel surpreendentemente central na política do xadrez nos últimos anos. O presidente da FIDE, Arkady Dvorkovich—ex-vice-primeiro-ministro da Rússia que lidera o xadrez mundial desde 2018—passou semanas em Budapeste em 2024 e foi agradecido publicamente por Orban.
No início de 2026, foi noticiado que o nome de Dvorkovich apareceu no rascunho do 20º pacote de sanções da UE. A Hungria—que tinha suas próprias razões, muito maiores, para se opor ao pacote—bloqueou tudo.
Quando Magyar foi eleito no início deste ano, derrubando Orban, o mundo do xadrez prendeu a respiração com o resultado. Isso poderia ter implicações para Dvorkovich?
Para Polgar, no entanto, a indicação representaria seu primeiro passo formal na política. Ao longo de sua carreira, ela permaneceu em grande parte fora da vida política partidária, concentrando-se na educação do xadrez, no desenvolvimento juvenil e em suas iniciativas educacionais por meio da Fundação de Xadrez Judit Polgar.
Seu perfil público tem se centrado na promoção do pensamento crítico, da igualdade de oportunidades e dos benefícios educacionais do xadrez, em vez de se envolver em política partidária.
Magyar descreveu Polgar como um símbolo de talento, perseverança e unidade nacional, dizendo que se encontraria com ela para discutir se ela está preparada para aceitar a indicação. A proposta ocorre em meio a mudanças constitucionais na Hungria após a vitória eleitoral de Magyar no início deste ano. Espera-se que o parlamento eleja o próximo presidente do país.
Caso Polgar aceite o cargo, ela adicionaria mais um capítulo notável a uma das carreiras mais extraordinárias do xadrez—desta vez não no tabuleiro, mas no palco nacional da Hungria.
